1975-1976
1982-1985
1986-1987
1988-1989
1994-1995
1995-1997
1997
2004
2001
2000
1999
1997
2005
2004
2003
2002
2001
2000
1999
1998
1997
Formação
Curso de artes plásticas na Escola Documenta de Arte
Curso de desenho e aquarela no Atelier Valdir Sarubbi
Curso de desenho com o Professor Carlos Fajardo
Curso de desenho com Elly Bueno
Curso de escultura no MUBE com Ângela Bassan
Curso de pintura e desenho com o Professor Carlos Fajardo
Curso de História da Arte com Rodrigo Naves
Exposições Individuais
Vida por um Fio – Valu Oria Galeria de Arte, Lord Palace Hotel, São Paulo
Temporada de Projetos, Paço das Artes
Gabinete de Arte Raquel Arnaud
Galerie Saint-Charles de Rose (Julho)
Individual, Programa ABRA/COCA-COLA, ABRA
Exposições Coletivas e Feiras
Ocupação, Paço das Artes, São Paulo
Casa Blindada, Lord Palace Hotel, São Paulo
Mostra do Audiovisual Paulista, MIS — Museu da Imagem e do Som, São Paulo
Mostra do Filme Livre, SESC Pompeia, São Paulo
Desenho: Traço e Espaço, Espaço ECCO, Brasília
Genius Loci, Casa Blindada
Artecidade Zonaleste, Casa Blindada
Rede de Tensão, Paço das Artes, São Paulo
Salão de Arte Contemporânea da Bahia, Salvador
A Casa Blindada, São Paulo
Foire d’Art Contemporain de Strasbourg, Galerie Claude Dorval, Strasbourg
Kunstmarkt 99, Galerie Claude Dorval, Düsseldorf
Foire Internationale d’Art Contemporain, Gabinete de Arte Raquel Arnaud, Paris
Foire d’Art Contemporain de Zurich, Galerie Claude Dorval, Zurich Group Exhibition, Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo
Programa ABRA/COCA-COLA de Exposições, Paço das Artes, São Paulo
Sheila Mann: Entre as Barragens e os Pergaminhos
A trajetória de Sheila Mann não se inscreve na linearidade confortável das genealogias artísticas. Seu trabalho nasce de uma confluência rara: uma biografia feita de deslocamentos (Beirute, Israel, São Paulo) e uma busca obsessiva por traduções — visuais, espaciais, gustativas — que pudessem dar conta de contradições históricas e íntimas.
Autodidata, Sheila começou pela pintura e pelo desenho, mas desde cedo compreendeu que as superfícies bidimensionais não bastavam para acolher a experiência de se sentir estrangeira em todas as línguas. Suas primeiras séries, marcadas por grades pretas e campos brancos que avançavam, já sugeriam a tensão entre contenção e transbordamento: a estrutura que barra e a cor que insiste. Mais tarde, esse vocabulário visual se expandiria em instalações na mostra coletiva A Casa Blindada, realizada em um casarão prestes a ser demolido — metáfora eloquente da precariedade de toda morada, material ou simbólica.
Nesse projeto coletivo, o tema da blindagem — física, psíquica, emocional — e ressoou na memória de Sheila sobre espaços de reclusão: a cozinha doméstica, a clausura feminina, o exílio cultural. A instalação quadriculada que produziu, costurada por fios vermelhos que pareciam sangrar das fissuras, condensou a síntese de seu percurso: conter e expor, cobrir e revelar.
Movida pela mesma urgência, Sheila viria a explorar suportes híbridos — objetos, vídeos, performances — sem nunca abandonar a investigação de como a memória se deposita nos materiais. Em Movimentos da Alma, série inédita de 365 imagens digitais, a janela tornou-se superfície metafórica: por ela, a luz se modifica e testemunha a variação imperceptível dos estados interiores.
Talvez nada resuma com mais precisão o alcance de seu trabalho que a ambivalência entre civilização e barbárie. Sheila converteu a recordação de uma infância na qual aprendia anatomia com as entranhas de um carneiro em um ciclo de esculturas e vídeos que convocam o fascínio e a repulsa: manequins mutilados, pergaminhos impressos com receitas e jornais, pigmento vermelho que insinua violência e desejo. Na série Civilização e Barbárie, a ceia — cena canônica de comunhão — é desfigurada pela explosão, pela fragmentação dos corpos, pela contaminação dos saberes.
Para Sheila, a arte não se dissocia do gesto político. Enquanto artista, investigou a gramática da contenção e da cicatriz; enquanto ativista, propôs outros modos de partilha. No projeto Peace on the Table, a comida tornou-se meio de reaproximação: mulheres judias e muçulmanas, reunidas ao redor da mesa, recriavam vínculos que a história insistiu em romper.
Se hoje seus trabalhos parecem ainda mais urgentes — num tempo de trincheiras simbólicas e narrativas simplistas — é porque Sheila sempre recusou soluções unívocas. Sua obra afirma que os limites, por mais blindados que pareçam, estão sempre ameaçados de se abrir. No embate entre o contido e o que irrompe, Sheila Mann constrói um território: frágil, plural, incontornável.
Sheila Mann: Between Dams and Scrolls
Sheila Mann’s trajectory does not fit comfortably within the linearity of artistic genealogies. Her work emerges from a rare confluence: a biography shaped by displacement — Beirut, Israel, São Paulo — and an obsessive search for translations — visual, spatial, and gustatory — capable of expressing both historical and intimate contradictions.
A self-taught artist, Sheila began with painting and drawing, but soon realized that two-dimensional surfaces were insufficient to contain the experience of feeling foreign in every language. Her early series, marked by black grids and advancing white fields, already suggested the tension between containment and overflow: the structure that restrains and the color that insists on breaking free. Later, this visual vocabulary would expand into installations, such as in the group exhibition The Armored House, staged inside a mansion about to be demolished — a striking metaphor for the fragility of every dwelling, material or symbolic.
In that collective project, the theme of “armor” — physical, psychic, emotional — resonated with Sheila’s memories of spaces of seclusion: the domestic kitchen, female confinement, cultural exile. Her checkered installation, sewn with red threads that seemed to bleed from the cracks, condensed the essence of her path: to contain and expose, to cover and reveal.
Driven by the same urgency, Sheila would go on to explore hybrid media — objects, videos, performances — while never abandoning her investigation of how memory becomes embedded in materials. In Movements of the Soul, a series of 365 digital images, the window becomes a metaphorical surface: through it, light shifts and bears witness to the imperceptible variations of inner states.
Perhaps nothing encapsulates the reach of her work more precisely than the tension between civilization and barbarism. Sheila transformed the memory of a childhood spent learning anatomy from the entrails of a lamb into a cycle of sculptures and videos that evoke both fascination and repulsion: mutilated mannequins, scrolls printed with recipes and newspapers, red pigment suggesting violence and desire. In the series Civilization and Barbarism, the supper — a canonical scene of communion — is disfigured by explosion, fragmentation, and contamination.
For Sheila, art is inseparable from political gesture. As an artist, she investigated the grammar of containment and the scar; as an activist, she proposed new forms of sharing. In her project Peace on the Table, food became a vehicle for reconciliation: Jewish and Muslim women, gathered around a table, re-created bonds that history had torn apart.
If her works feel even more urgent today — in a time of symbolic trenches and simplistic narratives — it is because Sheila has always rejected univocal solutions. Her art asserts that boundaries, however fortified, are always at risk of opening. In the confrontation between what is contained and what erupts, Sheila Mann builds a territory that is fragile, plural, and impossible to ignore.