A Casa Blindada

Projeto de Intervenção Artística numa Casa Abandonada

Barras / Barragens / Bandagens investigates the notion of shielding—physical, mental, and emotional—through the direct occupation of space and the viewer’s embodied experience. The artist traces black tape over the white ceramic tiles of a kitchen, with red areas interspersed. This creates a visual grid that evokes bars, borders, and containment. The work activates readings that oscillate between protection and confinement, the interruption of vital flows, and the concealment of wounds. As this rigid structure gradually dissolves, red threads emerge like circulating veins. They point toward openness, transformation, and renewal, affirming art as a field of sensibility capable of tensioning and crossing structures of control.

Barras / Barragens / Bandagens investiga a noção de blindagem — física, mental e emocional — por meio da ocupação direta do espaço e da experiência do espectador. Ao traçar fitas pretas sobre a cerâmica branca de uma cozinha, intercaladas por áreas vermelhas, a artista constrói uma trama que evoca grades, fronteiras e contenções, acionando leituras que oscilam entre proteção e aprisionamento, interrupção de fluxos e ocultação de feridas. À medida que essa estrutura rígida se desfaz, surgem fios vermelhos, como veias em circulação, apontando para a possibilidade de abertura, transformação e renovação, e afirmando a arte como campo de sensibilidade capaz de tensionar e atravessar estruturas de controle.

A forma e o local onde se exibe um trabalho de arte tem sido assunto de estudo de diversos historiadores de arte nos últimos anos. Estes estudos são verdadeiros mapeamentos da atividade curatorial, que tem sua origem no século 17, e evidenciam que a produção e o pensamento artístico sempre fora fortemente influenciado pelos modelos expositivos. Se analisarmos brevemente apenas o século 20, constataremos com o modelo expositivo moderno, uma espécie de fórmula ideal que resultou no conhecido “cubo branco”, foi decisivo na produção artística do período. E veremos que até hoje muito do que se faz e se discute sobre formas alternativas de se exibir arte está diretamente ligada a uma necessidade de superação do modelo moderno.

Não seria possível afirmar que temos hoje um modelo contemporâneo para exibição de obras de arte. Até porque hoje são inúmeras as formas em que se exibe arte. Além de bienais espalhadas pelo mundo, com propostas das mais variadas, temos o recente fenômeno das feiras de arte, o também recente fenômeno dos curadores-artistas e a entrada massiva de espaços culturais de empresas. Talvez o que melhor caracterize a contemporaneidade seja exatamente esta liberdade de experimentação e questionamento. Alguns projetos, contudo, têm sido mais radicais na forma de exibir arte. São aqueles projetos intitulados de arte pública. Aliás, título muito mal escolhido se lembrarmos que sob este rótulo poderíamos incluir toda a história da arte.

Título a parte, alguns desses projetos de arte pública vêm buscando formas de exibir arte alternativas às das instituições com o objetivo de tornar mais fácil a comunicação com o público não iniciado. Os resulta dos são bastante discutíveis, mas considero extremamente pertinente, iniciativas curatoriais que objetivem estar mais próximas da produção contemporânea, que revela um estreitamento entre vida e arte. O deslocamento da percepção de valores formais para valores da vida está na base para iniciarmos qualquer pensamento sobre arte hoje, seja ela rotulada pública ou não pública.

É por me interessar nessas questões que aceitei realizar a curadoria do projeto Casa Blindada. O grupo de 7 artistas envolvidos no projeto trabalha junto em workshops teóricos de Carlos Fajardo. Decidiram se aventurar numa intervenção coletiva em uma casa abandonada da avenida Rebouças. Durante quase dois meses nos propusemos encontros semanais em que discutimos noções de arte pública, tentando relacioná-las a nosso projeto em andamento, além de discutirmos os trabalhos que cada um realizou tendo como ligação entre todos eles a noção de blindagem.

“Este projeto, apesar de poder ser intitulado público, passa a boa distância dos projetos de arte publica nos moldes descritos acima. Apesar do local escolhido ser uma casa abandonada, sem nenhum vínculo com o circuito institucional, os procedimentos foram sempre museológicos. Em nenhum momento objetivamos interagir com públicos não iniciados ou questionar modelos institucionais. Acredito que esta iniciativa esteja mais relacionada ao desejo dos artistas de se envolver em espaços que não pertencem ao circuito artístico, o que possibilitou uma experimentação descompromissada e mais desafiadora para suas trajetórias. Alguns deles são pintores que ainda não tinham se aventurado num pensamento de instalação. Outros aproveitaram a oportunidade para dar continuidade a ideias instalativas.

O tema blindagem surgiu naturalmente a partir de constatações e experiências individuais da violência que assola crescentemente a cidade de São Paulo. Foi a partir da necessidade de se pensar sobre os efeitos que a violência gera que partimos para uma “viagem” mais ampla sobre a questão da blindagem, forma atual de proteção, de divisão entre território ameaçador e território protegido. Cada artista trouxe sua visão pessoal sobre blindagem e através de seus trabalhos acabamos realizando uma análise sobre a contemporaneidade. Falamos de blindagem cultural, social, emocional e noções de isolamento, incomunicabilidade, vazio, exclusão, claustrofobia, inversão, distanciamento, cegueira, impossibilidade, superficialidade, deslocamentos.

— GEORGIA LOBACHEFF

A Casa Blindada

Artistic Intervention Project in an Abandoned House

The form and location in which an artwork is displayed have become subjects of extensive inquiry among art historians in recent years. These studies map out curatorial activity—whose origins date back to the seventeenth century—and demonstrate how artistic production and thought have always been profoundly influenced by exhibition models. A brief look at the twentieth century reveals that the modern exhibition model, embodied in the “white cube,” became a kind of ideal formula that decisively shaped the artistic production of its time. Even today, many discussions and experimental approaches to exhibiting art are directly tied to the need to overcome that modern paradigm.

It is difficult to claim that we now have a single contemporary model for exhibiting art. The multiplicity of formats is too vast. Alongside biennials around the world, each with its own proposals, we witness the growing phenomenon of art fairs, the emergence of artist-curators, and the widespread rise of corporate cultural spaces. Perhaps what best characterizes contemporaneity is precisely this freedom to experiment and to question.

Some projects, however, have been more radical in how they exhibit art—particularly those labeled public art. The label itself is misleading, since it could encompass the entire history of art. Nonetheless, certain public art initiatives actively seek alternatives to institutional exhibition formats in order to establish communication with audiences unaccustomed to contemporary art. The results are widely debated, but I consider extremely relevant any curatorial initiative that aims to engage more closely with contemporary artistic production, which increasingly reveals the narrowing of boundaries between art and life. Shifting our attention from formal values to the values of lived experience is essential today, whether an artwork is labeled public or not.

It was out of an interest in these questions that I agreed to curate Casa Blindada. The group of seven artists involved in the project has been working together in theoretical workshops led by Carlos Fajardo. They decided to undertake a collective intervention in an abandoned house on Avenida Rebouças. For nearly two months, we committed to weekly meetings in which we discussed notions of public art and attempted to relate them to our ongoing project, while also examining the works each artist created around a shared conceptual thread: the idea of shielding.

Although this project could be described as public, it diverges considerably from the public art projects mentioned above. Even though the chosen site is an abandoned house with no connection to the institutional circuit, our procedures remained consistently museological. At no point did we aim to interact with non-initiated audiences or to challenge institutional models. I believe this initiative is more closely linked to the artists’ desire to engage with spaces outside the traditional art circuit—spaces that allow for experimentation that is both unburdened and demanding for their individual practices. Some of the participants are painters who had never before ventured into installation thinking; others used the opportunity to deepen ongoing installation ideas.

The theme of shielding emerged organically from individual reflections and lived experiences of the rising violence in São Paulo. It was out of a need to consider the effects of this violence that we broadened our inquiry into shielding as a contemporary form of protection—a boundary between threatened and protected territories. Each artist contributed a personal interpretation, and their works collectively formed an analysis of contemporaneity. We addressed cultural, social, and emotional shielding, as well as notions of isolation, incommunicability, emptiness, exclusion, claustrophobia, inversion, distance, blindness, impossibility, superficiality, and displacement.

— GEORGIA LOBACHEFF

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