PROJETO DE INSTALAÇÕES
CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE
"Cultura é apenas uma tênue pele de maçâ sobre um Caos incandescente. Viver isto significa, para nós, transformar continuamente em luz e flama tudo o que somos, e também tudo o que nos atinge; não podemos agir de outro modo.”
— NIETZSCHE - A GAIA CIÊNCIA
INSTALLATION PROJECT
CIVILIZATION AND BARBARISM
“Culture is but a thin apple skin over a glowing Chaos. To live this means, for us, to continually transform into light and flame everything we are and everything that strikes us; we cannot act otherwise.”
— NIETZSCHE, The Gay Science
The Last Supper
The historical supper immortalized by Leonardo da Vinci — Jesus gathered with his twelve disciples for a final meal — shaped Western civilization and gave rise to Christianity. Over time, the image settled into the Western subconscious and, tragically, contributed to the belief that Jews were responsible for Jesus’s death. This misconception fueled centuries of persecution and massacre, the roots of modern antisemitism.
Antisemitism is so visceral that neither culture nor rational argument seems capable of dismantling it.
In my installation, The Last Supper, the protagonists are replaced by mannequin torsos. One side of each torso is covered with images of raw flesh and viscera — flayed, bloodied surfaces referencing the countless wars and massacres justified in the name of religion. The reverse side is lined with newspapers (writing = civilization), because no theory or ideology can truly explain these events. I chose newspapers printed in Arabic and Hebrew to reference the ongoing conflicts between Israelis and Arabs, which continue to undermine decades of coexistence and attempts at mutual understanding.
As historian Léon Poliakov notes in The History of Anti-Semitism, Arabs learned to persecute Jews only in the Middle Ages, when their conquests brought them into Christian Europe, and they witnessed how Christians mistreated Jewish communities.
Now, entering the twenty-first century, nothing seems to have changed. The question persists: What is the value of culture? Nietzsche reminds us that culture is but a thin crust over a burning core. Can art awaken consciousness? Can it transmute the untamed human instinct into reflection?
Leonardo’s iconic scene, where Jesus proclaims:
“This is my body, which is given for you… This cup is the new covenant in my blood; do this in remembrance of me.”
It is here reimagined not as redemption but as a mirror of human brutality carried through the centuries.
A Santa Ceia
Essa ceia histórica, eternizada por Leonardo da Vinci na sua famosa pintura, que mostra jesus com os seus doze discípulos numa última refeição, marcou a civilização ocidental e deu origem ao cristianismo. Ao mesmo tempo, se tornou uma imagem no subconsciente ocidental e passou a ilustrar a crença de serem os judeus os autores da morte dele. Isso provocou, durante séculos, inúmeras perseguições e massacres dos judeus, que carregam até hoje esse estigma, tornando-se a raiz do antissemitismo da nossa era.
O antisemitismo é tão visceral que nenhuma cultura e nenhum argumento racional conseguem dar conta desse estigma.
Nessa minha instalação,"a santa ceia", os protagonistas foram substituídos por torsos de manequins, revestidos em um dos lados de imagens de carnes e visceras, esfolados e sangrentos em uma referência às inúmeras guerras e massacres perpetrados em nome da religião. E se eu forro o avesso destes "pseudo-corpos" de jornais (escrita=civilização) é porque nenhum argumento ou teoria é capaz de explicar esses fatos. Escolhi usar jornais com a escrita árabe e hebraica remetendo as conflitos atuais entre o povo de Israel e os árabes, colocando em xeque anos de entendimento e convivência pacífica entre esses dois povos. De acordo com o historiador Leon Poliakov no seu livro "As origens do antisemitismo", os árabes só foram aprender a maltratar os judeus na idade média, quando seguindo as suas conquistas, atravessaram os Pirineus em direção à França e viram como os cristãos os maltratavam!
Nós agora entramos no século XXI, e parece que nada mudou! A pergunta necessária a fazer é: qual é o valor da cultura? De acordo com Nietzsche, "a cultura é apenas uma fina casca de maçã sobre um caos incandescente." A arte tem o poder de despertar a consciência transformar os instintos indomáveis dos seres humanos, levando-os a refletir sobre si mesmos?
Esta cena imortalizada pelo artista Leonardo da Vinci, mostrando a última ceia de Jesus com seus discípulos, onde ele pregou:
"Este é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim. Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim."
The Scrolls
The Scrolls consist of multiple rolls of Japanese paper printed with images of raw meat and lined on the inside with Arabic and Hebrew newspapers. Displayed inside acrylic cases shaped to evoke Torah scrolls, these objects open to reveal, on one side, images reminiscent of flayed, blood-stained skin and, on the other, newsprint documenting the continuous conflicts between Israelis and Palestinians — news inscribed on flesh.
The work references the world-renowned Dead Sea Scrolls, which have been studied by historians worldwide. But deciphering ancient histories serves little purpose if it does not lead to awareness: a collective understanding of how deeply religious wars have scarred humanity, killing millions of believers across all faiths year after year.
Os Pergaminhos
O projeto de instalação Os Pergaminhos consiste em diversos rolinhos de papel japonês impressos com imagens de carnes, forrados no avesso com jornais escritos em árabe e hebraico. Dispostos dentro de expositores de acrílico, cujo formato lembra rolos da Torah, eles se abrem mostrando de um lado as imagens de carne que rementem a peles esfoladas e sangrentas e do outro os jornais que trazem as notícias do cotidiano documentando os contínuos conflitos deflagrados entre israelenses e palestinos. É o noticiário inscrito a pele.
Esses pergaminhos se referem aos mundialmente conhecidos "Pergaminhos do Mar Morto", objeto de estudos de historiadores do mundo todo. Decifrar e estudar a história desses povos antigos de nada serve se não for levar a uma conscientização e aprendizado de como podemos erradicar as guerras religiosas, que tem matado a cada ano milhões de fiéis de todas as religiões.
In the Name of God
I constantly ask myself: What god is this in whose name the most atrocious acts known to humankind are committed — and have been for centuries? Even today, in the twenty-first century, we witness wars and terrorist acts daily. And all in the name of the God of Abraham, Isaac, and Jacob — the God shared by the three monotheistic religions.
Where is the love of one’s neighbor that these religions preach? And where is this God who allows such horrors to unfold? How does He remain unmoved while watching everything from above? The distinction between armies and civilians has vanished; few are shocked anymore by the deaths of women and children.
The installation In the Name of God presents five suspended blocks of dismembered, seemingly exploded bodies, hung on metal hooks along a rail, resembling carcasses in a slaughterhouse. To enter the installation — ideally exhibited in a refrigerated environment — the viewer passes through plastic strips marked with blood traces, recalling the entrance to a meatpacking facility.
It is as if slaughterhouses have replaced morgues — places where the dead are now heaped together.
Em Nome de Deus
Sempre me pergunto que deus é esse, em cujo nome, são perpetradas as ações mais atrozes vistas pela humanidade e que tem se alastrados por séculos. Ainda hoje, em pleno século XXI, testemunhamos diariamente guerras e atos terroristas em todo o planeta. E tudo em nome de deus, o de Abraão, Izaac e Jacó: deus das três religiões monoteistas.
Onde foi parar o amor ao próximo que é pregado pelas três religiões? E onde está esse deus que permite esses massacres horrendos? Como ele pode continuar imperturbável olhando tudo de cima? Não há mais distinção entre exércitos que lutam e civis, ninguém mais se impressiona com a morte de mulheres e crianças, que sempre foram poupados.
A instalação "Em Nome de Deus" apresenta cinco blocos de corpos despedaçados, que parecem explodidos, pendurados em um trilho e sustentados por ganchos de açougue. Para adentrar essa instalação, que preferencialmente deveria ser refrigerada, e preciso atravessar tiras de plástico com marcas de sangue, em uma referência a entrada de um frigorífico.
Isso porque parece que hoje os frigoríficos substituíram os necrotérios, lugar onde os corpos dos mortos são amontoados.
Inscribed in the Flesh
This work features images of raw meat printed on Japanese paper, coated with red engraving ink, and interwoven with fragments of newspaper. These elements are assembled like a puzzle. Over them, Lebanese recipes — printed in relief in French, Arabic, and Hebrew — appear in red.
The title Inscribed in the Flesh points to our primary identity:
the cuisine through which we were nourished as children, evoking memories of affection, and the languages in which we were raised.
Lebanese cuisine has always been central to my life through heritage. I was educated in a French school and first learned to read and write in French. At home, we spoke Arabic. Later, after immigrating to Israel, I completed my studies in Hebrew. All of this is inscribed in me — a cultural and emotional inheritance that shapes who I am today.
These works are meant to be displayed unframed, attached only with clips to a steel cable, like hides curing in a tannery. The treatment of the paper evokes skin, the earliest support for writing in human history.
Despite our evolution, human destructive instinct persists, continuing to generate wars that grow ever more brutal and dehumanizing.
Inscrito na Carne
Esse trabalho traz as imagens das carnes impressas sobre papel japonês, cobertas com tinta vermelha de gravura e entremeadas por recortes de jornais, montadas como se fosse um quebra-cabeça.
Finalmente várias receitas da culinária libanesa em três línguas, francês, árabe e hebraico, são gravadas em vermelho e em alto relevo sobre essas imagens.
O título "Inscrito na carne" foi escolhido por nos levar à nossa identidade primária: Seja ela a culinária com a qual fomos alimentados desde crianças e que nos marca pela lembrança afetiva à qual nos remete, ou seja ela a língua na qual fomos criados. Para mim, a culinária libanesa sempre fez parte da minha vida pela minha origem. Tendo estudado numa escola francesa, a língua na qual eu fui alfabetizada foi o francês.
Mas em casa, falávamos árabe. E com a minha imigração para Israel, o hebraico foi a língua na qual terminei os meus estudos. Está tudo aí, inscrito em mim, herança afetiva e cultural, que faz de mim, o que eu sou hoje.
Esses trabalhos deverão ser expostos soltos sem moldura, somente presos por prendedores num cabo de aço, estendido, como se fossem peles curtidas num curtume. O tratamento dado a esses papeis, nos lembrar peles, primeiro suporte para escrita desde tempos remotos.
Apesar da nossa evolução, o instinto destrutivo do ser humano continua prevalecendo, levando a guerras sangrentas e cada vez mais desumanas.